Luz sobre Bublé

O cantor canadense fala de hóquei, fãs e do repertório ‘esquizofrênico’ de seu novo disco, ‘To Be Loved’

Por Roberto Nascimento – Fonte: Estadao.com.br

LOS ANGELES – Numa quebrada de West Hollywood, palmeiras californianas se enfileiram na ladeira até a porta do Sunset Marquis, retiro de atores à espera dos Oscars, jogadores de futebol (“Romário esteve aqui na semana passada”, conta o jardineiro) e poderosos em geral. Michael Bublé, crooner, ídolo de garotas e de suas mães, vencedor de quatro Grammy’s, milionário, está no sofá da suíte 5. Veste camiseta e jeans rasgado, daqueles à venda em lojas de departamento. Não fosse o óbvio talento no timbre de voz, nítido até em conversa, poderia ser um roadie ou o simpático assistente de um hóspede famoso. “Pode gravar todos os comentários racistas que estou prestes a lhe dizer”, brinca. Em 20 minutos de conversa, exibindo o mesmo carisma que ostenta sobre o palco, Bublé (a ênfase é no u) falou sobre hóquei, sua carreira e seu novo disco, To Be Loved, cujo ensolarado single It’s a Beautiful Day, acaba de ser lançado.

O novo disco tem soul, swing, pop de Autotune e blues, uma continuação da mistura com a qual você já está acostumado. Você já temeu não encaixar-se em um gênero?

Demorei 10 anos para conseguir um contrato de gravação. Quando consegui, tinha uma pessoa na Warner cuja função era estimar quanto os artistas venderiam em sua carreira. A estimativa para mim era entre 50 mil e 100 mil cópias. David Foster, o produtor, certa vez me disse que não ia me contratar. Todo mundo disse a mesma coisa. Tinha 16 quando comecei. Quando tinha 26, em todo lugar que eu ia, me diziam, você é um cara legal, talentoso, mas não funciona. Eu ouvi isso de novo e de novo e de novo.

Você não mudou.

Sabia o que queria. Quer dizer, sabia o gostava de fazer. Hoje, tenho sorte de poder fazer esses discos esquizofrênicos, mudar de estilo de uma canção para a outra. Assisto o X-Factor, um moleque canta e eles dizem, ah você tá fazendo um lance Bublé. As pessoas não questionam. Mas não foi sempre assim.

É curioso o seu sucesso com jovens e adultos.

Não só isso, mas com diferentes tipos de jovens. Tomei um voo da Argentina para Los Angeles outro dia. Uma aeromoça pediu uma foto, a outra aeromoça pegou a câmera. A primeira falou: ‘Este é o cara que canta I Just Havent Met You Yet’. A outra não me conhecia. Aí a primeira disse, é o Michael Bublé! A outra se lembrou na hora: ‘Caramba! É o Sinatra da nossa geração!’. Então, para uma eu era o Sinatra, para a outra, o Justin Timberlake.

O que há de novo em To Be Loved?

É um disco mais agressivo. Estilisticamente, tem mais pegada. Arrisquei coisas que nunca tinha tentado antes. Aquelas canções da Motown (acompanhadas pelos Dap Kings). Coloquei minha voz em uma posição que as pessoas não estão acostumadas a ouvir. Por boa parte da minha carreira me preocupei com o que o meu público acharia. Era sempre “não vou me arriscar porque vou perder meus fãs”. Nesse disco, as coisas que aconteceram na minha vida me deram perspectiva. Vou ser pai agora. Não quero ser arrogante, mas eu não estou nem aí. F…-se. Amo o meu disco. Tenho orgulho dele, mas se vendermos 2 milhões ou 8 milhões, eu tenho mais o que fazer. O resto é lucro. No geral, me sinto mais feliz. Vou ser pai. Eu me sinto mais corajoso. Estou satisfeito. Desculpe se não posso contar a você uma história mais dramática. 

It’s a Beautiful Day usa um software de afinação. Você precisa disso?

Eu uso quando gravo as canções mais pop. É uma escolha estética. Nos standards, a minha voz está crua. Tento ser o mais direto possível e errar pouco.

Você fala de pegada, sempre diz que seu sonho era ser jogador de hóquei, um esporte agressivo. Já quis ter um público mais masculino, em vez de ser o colírio das moças?

Tipo um roqueiro? Não me preocupo com uma plateia com overdose de testosterona. Primeiro vem a família, depois o hóquei, depois a música. Se você quer saber, sou alucinado por hóquei. Sou até dono de um time chamado Giants.

A sua história de sucesso está longe de ser o conto de fadas que as pessoas esperam. Como você conseguiu ser contratado?

É uma longa história, mas aqui vai. Estava em Los Angeles. Por 10 anos batalhei por um contrato. Gravei discos indie. Eu era muito descolado, cara. As pessoas diziam, ‘ele é indie, bicho’. Você é muito cool quando não vende discos (risos). Ia voltar para Toronto. Não estava apenas sem dinheiro, mas sem esperança. Tinha ido às gravadoras, às agências. Não consegui entrar na patota. Liguei para os meus pais. Disse que não foi por falta de talento ou determinação, mas que não tinha dado certo para mim. Queria uma família, então iria estudar jornalismo. Dois dias antes de eu voltar, fiz um show para pagar a passagem. Deixei meu último disco na mesa de um cara chamado Michael McSweeney e disse ‘espero que você goste. Se não gostar, será uma ótima bolacha para apoiar o drinque’. Ele riu. No dia seguinte, me ligou, disse que era o braço direito do então primeiro-ministro do Canadá, Brian Mulroney.

Ele tem conexões em L.A.?

Não, mas a mulher dele gostou do disco e quis me conhecer. Fui ao hotel. Tomei um copo de vinho, fiquei trilili. Ela disse que sua filha ia casar, e queria que eu cantasse no casamento. Mas cantor de casamento? Pelo menos podia encerrar a carreira com alguma dignidade. Quando disse que David Foster, o produtor, estaria lá, resolvi dar uma chance. Eles, o casal, tinham apresentado Céline Dion a Foster.

Ele é uma lenda. Já gravou Beyoncé, Madonna, Prince. Todo mundo.

Sim. Por isso estava atrás dele. Para encurtar a história, ele me convidou para vir a Los Angeles, Disse que ia me ajudar, mas não ajudou. Me colocou para tocar em festas chiques. Quando perguntei quando iríamos gravar, ele me mandou cair fora da casa dele. Disse que nunca me produziria,Uma semana depois, voltei, e pedi de novo. Ele disse que faria por 500 mil, mas estava apenas me testando, pois sabia que eu não tinha o dinheiro. Então voltei para o Canadá, fui de banco em banco, e juntei meio milhão de dólares. Duas semanas de gravação, e Paul Anka disse que queria ser o produtor executivo. Devolvi o empréstimo. Pensei que tinha conseguido. Longe disso. Uma semana depois, descobri pelo baterista do disco que não havia dinheiro nenhum. Foster disse ‘você é um bom garoto. Talentoso. Mas não vai rolar’. Os investidores de Anka pularam fora. Desabei. Tinha chegado tão perto. Havia tocado o sucesso com as pontas dos meus dedos. O coprodutor Humberto Gática me deu uma carona, e, depois de duas horas me ouvindo chorar, me contou como tinha que falar com Foster. Dois dias depois, fui à casa de Kenny G. Foster estava lá, o chamei de lado e pedi para falar com o presidente da Warner. Dave disse: ‘Está bem. Vamos ver o que um moleque de 25 sabe sobre a indústria fonográfica. Me levou para conversar com Tom Wally. Entrei no escritório e, antes de sentar, me perguntou porque eu achava que a Warner precisava de um novo Sinatra. Eu respondi: ‘Com todo o respeito, senhor. Sinatra está morto’. Dois dias depois, meu avô querido, que tinha vindo me visitar, entrou no meu quarto. O telefone tinha tocado. Eu tinha um contrato.

To Be Loved
Chega às lojas no dia 23 de abril.
O single, It’s a Beautiful Day, é semelhante a Haven’t Met You Yet, o hit de 2009, mas Bublé variou no repertório. Contratou os Dap Kings e inseriu arranjos latinos, sem deixar de fora o jazz de big band de sempre

O repórter viajou a convite da gravadora Warner

 

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Uma resposta para Luz sobre Bublé

  1. Cristiane silva lovato disse:

    Ainda bem que vc nao desistiu com as pedras no caminho, cada vez gosto mais de tudo que voce faz!!!! Sucesso sempre

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